em_trânsito #9, fotografia de catarina cabral
As luzes desfilam na estação. O olhar em movimento. Arrastados de pessoas e de linhas geométricas. A vertigem, a vertigem de continuar.
Paris à noite rumo a um hotel.
from here
leaving Copenhagen
A chuva nas janelas. Em andamento. Em movimento contínuo.
A vertigem. O mar à volta e cabines pintadas de graffiti. Janelas. Filas de carros à espera.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024


O Ó gostava de se rebolar, ora para um lado, ora para o outro. Se o terreno declinava, o Ó lançava-se pelo declive ganhando velocidade.

O Ó chamava, elevando a voz para dizer o nome de quem queria chamar. Dizia-se que era uma das suas especialidades, esse chamar por alguém num tom que exigia atenção absoluta. Por vezes, acontecia-lhe esquecer-se do nome da pessoa e então ficava centrado em si mesmo, esticando-se, alongando-se, repetindo-se. Nessas alturas, sentia-se perdido, incompleto. Desfazia-se em reticências, esperando ainda assim que o compreendessem e o olhassem na expectativa de uma confirmação. Sou eu que chamas?

O Ó abria as bocas em círculo, girava à volta, corria em roda, projectava-se nas argolas de fumo até se fundir com o ar. Era exclamação, interjeição, expressão de pena, ironia. 

Texto e fotografia de Catarina Cabral


 

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