em_trânsito #9, fotografia de catarina cabral
As luzes desfilam na estação. O olhar em movimento. Arrastados de pessoas e de linhas geométricas. A vertigem, a vertigem de continuar.
Paris à noite rumo a um hotel.
from here
leaving Copenhagen
A chuva nas janelas. Em andamento. Em movimento contínuo.
A vertigem. O mar à volta e cabines pintadas de graffiti. Janelas. Filas de carros à espera.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

 

Quando escrevo, incendiam-se palavras dentro de mim, acendem-se luzes na escuridão, agitam-se ventos que transformam a minha alma.


Catarina Cabral

quinta-feira, 2 de maio de 2024

De pé, na paragem

 

Adormeceste de pé uma vez, encostada ao vidro da paragem. Esperavas o autocarro do costume, ainda noite na manhã fria. Às vezes, vinhas de auriculares nos ouvidos, a ouvir canções que te faziam semicerrar os olhos e sorrir em silêncio. Outras vezes, punhas-te a falar com quem ali estivesse também à espera. Eram desabafos de circunstância. Por exemplo, a demora do autocarro, o frio que se fazia sentir, a semana a começar... E na cabeça, a preocupação do sustento, agora que o teu marido ficara no desemprego. As manhãs raramente clareavam, enquanto esperavas na paragem. Hora cruel e violenta, de interrupção do sono, o rosto magro vincado, os olhos escuros, fundos e olheirentos, a pele a cheirar ao duche, o cabelo revolto à pressa escovado, uma mala pequena a tiracolo. Adormeceste de pé, uma vez. Foi nesse momento que te olhei. Na folha do meu caderno, desenhei o teu contorno. Passaste a acompanhar-me sem o saberes, desenhava-te sempre. Foste a criação das minhas esperas daquele primeiro autocarro da manhã. Esse tempo que já passou, que já não é mais o meu nem o teu, pois as nossas vidas continuaram, mudaram, e nunca mais te desenhei.

Texto de Catarina Cabral

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024


O Ó gostava de se rebolar, ora para um lado, ora para o outro. Se o terreno declinava, o Ó lançava-se pelo declive ganhando velocidade.

O Ó chamava, elevando a voz para dizer o nome de quem queria chamar. Dizia-se que era uma das suas especialidades, esse chamar por alguém num tom que exigia atenção absoluta. Por vezes, acontecia-lhe esquecer-se do nome da pessoa e então ficava centrado em si mesmo, esticando-se, alongando-se, repetindo-se. Nessas alturas, sentia-se perdido, incompleto. Desfazia-se em reticências, esperando ainda assim que o compreendessem e o olhassem na expectativa de uma confirmação. Sou eu que chamas?

O Ó abria as bocas em círculo, girava à volta, corria em roda, projectava-se nas argolas de fumo até se fundir com o ar. Era exclamação, interjeição, expressão de pena, ironia. 

Texto e fotografia de Catarina Cabral


 

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Reciclagem

Do baú velho vou retirando objectos do passado, cadernos de folhas amarelecidas pelo tempo, fragmentos de textos de histórias inacabadas. Reciclo algumas palavras como “amor”, “espanto”, “paixão”.

Retiro da velha arca de verga peças de jogos infantis, negativos de fotografias, rascunhos de cartas, presentes que não faz mais sentido ter, recortes de actrizes de cinema, molduras sem rosto, um instrumento musical achado na rua, uma corda de saltar vermelha, moedas de países estrangeiros, cartões de aniversário que fui recebendo ao longo dos anos. Reencaminho alguns desses objectos para outros locais da casa, na esperança de lhes dar vida.

Converto memórias em histórias, amores não correspondidos em ficção, e sorrio quando escrevo “faz um ano”, “faz dois anos”, “há muito tempo atrás”.

Reinvento jogos para as crianças do futuro, com peças toscas do meu baú. Liberto tudo o que na arca tinha trancado e adiado. As palavras giram no pensamento como um carrossel cheio de música e luzes.

E no lugar da velha arca existirá um espaço novo, também ele reciclado.

Texto de Catarina Cabral


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Convocatória


Agora vão ver quem sou, disse ela, para o seu rosto zangado reflectido no espelho redondo da casa de banho. Agora vão ver... , repetia para si, ajeitando com desdém a gola alta de uma blusa vermelha escura, que vestira à pressa naquela manhã, com o despertador ainda a tocar, e o patrão a exigir-lhe horas extraordinárias que não lhe eram pagas. Agora vão ver... Estava decidida, e num passo firme, sem vacilar, escancarou a porta da casa de banho, no momento em que a voz áspera e autoritária do chefe de departamento soava no comprido corredor da empresa. A sombra daquele homem sinistro dançava na parede, os braços agitavam-se brandido um maço de folhas de papel. Gritava lá do fundo. E Graciete pareceu ouvir o seu nome desprender-se daquele vociferar. Como ela daria tudo para se ir embora... Agora vão ver, sim, vão ver quem sou, continuava a repetir no pensamento. Deu por si, estacada no corredor, barrando o caminho daquele que vinha na sua direcção, a sombra dele estendendo-se por toda a parede iluminada pelos feixes de luz que as lâmpadas injectavam no espaço.

Ouviu injustamente a convocatória para se apresentar às horas extraordinárias que não lhe eram pagas; a convocatória vinha com a habitual ameaça de despedimento se não cumprisse. E não quis ouvir o resto que se seguia, a descrição das pesadas tarefas que lhe caberiam desta vez, outra vez. Estava farta. Despira o uniforme na casa de banho; a camisola de malha vermelha escura voltava agora a ser a indumentária para o dia, juntamente com as calças de ganga azuis, tal como saíra de casa. Estava farta. Agora vão ver... De um trago, o ar libertou-se-lhe dos pulmões. Gritou bem alto que era ela que se despedia.

Texto de Catarina Cabral

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Depois da tempestade

   Numa outra direcção, o sopro da vela, a tempestade já calma. De mochila às costas, fiz-me ao caminho, pisando a berma de uma velha estrada secundária, que se estendia em linha recta, da aldeia para o campo e do campo para uma outra aldeia. Manhã cedo ainda, o céu e as nuvens reflectidas nos lençóis de água que cobriam partes da estrada; nenhum carro, ninguém. Só os meus passos durante uma meia-hora de caminhada. Ao longe, o ladrar dos cães, e muito perto,vindo do interior das árvores, os vários cantos e piares de aves. Por vezes, via-as voar em bandos contra a luz molhada da manhã.
   A mochila pesava-me com o que nela transportava. Alguma roupa, mantimentos, agasalhos e livros. Não sabia quando regressaria, dependeria da direcção que tomasse no próximo cruzamento. Há algum tempo que me deixara de guiar pelo mapa. Agora progredia ao sabor do vento, como a vela que eu soprara ao sair da penumbra do albergue. A minha mente entretanto acalmara. Já não sentia dentro dela a agitação de um mar revolto, embora a ondulação ainda quebrasse com força contra mim mesmo...
   Tentei aguentar o passo firme durante meia-hora mais até que cedi à fraqueza, aquela fraqueza que eu tão bem conhecia no corpo cansado. Apercebi-me de que pouco comera na véspera, e que as paredes do estômago se colavam numa especie de azia que doía. Sentei-me num marco de pedra, desembrulhei uma sanduíche e fui comendo-a devagar.
   O horizonte acenava-me uma outra direcção. O caminho bifurcar-se-ia lá à frente. Era preciso escolher. Talvez no ponto em que as copas das árvores se juntavam acompanhando as bermas da estrada, ou talvez chegando ao muro em ruínas que uma habitação ali abandonara, ou ouvindo o vento, o canto das aves, e a minha própria respiração enleada neles.
   Pus-me de pé com a mochila novamente às costas, e continuei. O passo calcando a terra que não secara na berma, as marcas das minhas solas perseguindo-me e ficando para trás até desaparecerem.

Texto de Catarina Cabral

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

No inverno que me habita há uma porta de embarque para a estação seguinte, onde bonitas aves coloridas são aquelas que desejo ver. Para as encontrar, só tenho de as procurar.