O Ó gostava de se rebolar, ora para um lado, ora para o outro. Se o terreno declinava, o Ó lançava-se pelo declive ganhando velocidade.
O Ó chamava, elevando a voz para dizer o nome de quem queria chamar. Dizia-se que era uma das suas especialidades, esse chamar por alguém num tom que exigia atenção absoluta. Por vezes, acontecia-lhe esquecer-se do nome da pessoa e então ficava centrado em si mesmo, esticando-se, alongando-se, repetindo-se. Nessas alturas, sentia-se perdido, incompleto. Desfazia-se em reticências, esperando ainda assim que o compreendessem e o olhassem na expectativa de uma confirmação. Sou eu que chamas?
O
Ó abria as bocas em círculo, girava à volta, corria em roda, projectava-se nas
argolas de fumo até se fundir com o ar. Era exclamação, interjeição, expressão
de pena, ironia.
Texto e fotografia de Catarina Cabral

