Agora vão ver
quem sou, disse ela, para o seu rosto zangado reflectido no espelho redondo da
casa de banho. Agora vão ver... , repetia para si, ajeitando com desdém a gola
alta de uma blusa vermelha escura, que vestira à pressa naquela manhã, com o
despertador ainda a tocar, e o patrão a exigir-lhe horas extraordinárias que
não lhe eram pagas. Agora vão ver... Estava decidida, e num passo firme, sem
vacilar, escancarou a porta da casa de banho, no momento em que a voz áspera e
autoritária do chefe de departamento soava no comprido corredor da empresa. A
sombra daquele homem sinistro dançava na parede, os braços agitavam-se brandido
um maço de folhas de papel. Gritava lá do fundo. E Graciete pareceu ouvir o seu
nome desprender-se daquele vociferar. Como ela daria tudo para se ir embora...
Agora vão ver, sim, vão ver quem sou, continuava a repetir no pensamento. Deu
por si, estacada no corredor, barrando o caminho daquele que vinha na sua
direcção, a sombra dele estendendo-se por toda a parede iluminada pelos feixes
de luz que as lâmpadas injectavam no espaço.
Ouviu
injustamente a convocatória para se apresentar às horas extraordinárias que não
lhe eram pagas; a convocatória vinha com a habitual ameaça de despedimento se
não cumprisse. E não quis ouvir o resto que se seguia, a descrição das pesadas
tarefas que lhe caberiam desta vez, outra vez. Estava farta. Despira o uniforme
na casa de banho; a camisola de malha vermelha escura voltava agora a ser a
indumentária para o dia, juntamente com as calças de ganga azuis, tal como
saíra de casa. Estava farta. Agora vão ver... De um trago, o ar libertou-se-lhe
dos pulmões. Gritou bem alto que era ela que se despedia.
Texto de Catarina Cabral
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