em_trânsito #9, fotografia de catarina cabral
As luzes desfilam na estação. O olhar em movimento. Arrastados de pessoas e de linhas geométricas. A vertigem, a vertigem de continuar.
Paris à noite rumo a um hotel.
from here
leaving Copenhagen
A chuva nas janelas. Em andamento. Em movimento contínuo.
A vertigem. O mar à volta e cabines pintadas de graffiti. Janelas. Filas de carros à espera.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Convocatória


Agora vão ver quem sou, disse ela, para o seu rosto zangado reflectido no espelho redondo da casa de banho. Agora vão ver... , repetia para si, ajeitando com desdém a gola alta de uma blusa vermelha escura, que vestira à pressa naquela manhã, com o despertador ainda a tocar, e o patrão a exigir-lhe horas extraordinárias que não lhe eram pagas. Agora vão ver... Estava decidida, e num passo firme, sem vacilar, escancarou a porta da casa de banho, no momento em que a voz áspera e autoritária do chefe de departamento soava no comprido corredor da empresa. A sombra daquele homem sinistro dançava na parede, os braços agitavam-se brandido um maço de folhas de papel. Gritava lá do fundo. E Graciete pareceu ouvir o seu nome desprender-se daquele vociferar. Como ela daria tudo para se ir embora... Agora vão ver, sim, vão ver quem sou, continuava a repetir no pensamento. Deu por si, estacada no corredor, barrando o caminho daquele que vinha na sua direcção, a sombra dele estendendo-se por toda a parede iluminada pelos feixes de luz que as lâmpadas injectavam no espaço.

Ouviu injustamente a convocatória para se apresentar às horas extraordinárias que não lhe eram pagas; a convocatória vinha com a habitual ameaça de despedimento se não cumprisse. E não quis ouvir o resto que se seguia, a descrição das pesadas tarefas que lhe caberiam desta vez, outra vez. Estava farta. Despira o uniforme na casa de banho; a camisola de malha vermelha escura voltava agora a ser a indumentária para o dia, juntamente com as calças de ganga azuis, tal como saíra de casa. Estava farta. Agora vão ver... De um trago, o ar libertou-se-lhe dos pulmões. Gritou bem alto que era ela que se despedia.

Texto de Catarina Cabral

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