Do baú velho vou retirando objectos do
passado, cadernos de folhas amarelecidas pelo tempo, fragmentos de textos de
histórias inacabadas. Reciclo algumas palavras como “amor”, “espanto”,
“paixão”.
Retiro da velha arca de verga peças de
jogos infantis, negativos de fotografias, rascunhos de cartas, presentes que
não faz mais sentido ter, recortes de actrizes de cinema, molduras sem rosto,
um instrumento musical achado na rua, uma corda de saltar vermelha, moedas de
países estrangeiros, cartões de aniversário que fui recebendo ao longo dos
anos. Reencaminho alguns desses objectos para outros locais da casa, na
esperança de lhes dar vida.
Converto memórias em histórias, amores
não correspondidos em ficção, e sorrio quando escrevo “faz um ano”, “faz dois
anos”, “há muito tempo atrás”.
Reinvento jogos para as crianças do
futuro, com peças toscas do meu baú. Liberto tudo o que na arca tinha trancado
e adiado. As palavras giram no pensamento como um carrossel cheio de música e
luzes.
E no lugar da velha arca existirá um
espaço novo, também ele reciclado.
Texto de Catarina Cabral
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