em_trânsito #9, fotografia de catarina cabral
As luzes desfilam na estação. O olhar em movimento. Arrastados de pessoas e de linhas geométricas. A vertigem, a vertigem de continuar.
Paris à noite rumo a um hotel.
from here
leaving Copenhagen
A chuva nas janelas. Em andamento. Em movimento contínuo.
A vertigem. O mar à volta e cabines pintadas de graffiti. Janelas. Filas de carros à espera.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

 

Misteriosas, as palavras à espera de serem escritas.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Um fim de tarde numa esplanada ao vento


O vento ocupando a cadeira onde ninguém mais se sentou.

O vento bebendo dos copos na mesa vazios

O vento brincando com os guardanapos de papel amachucados,

O vento fazendo-os rodopiar no ar e no chão

 

O vento varrendo para longe os restos, as migalhas

O vento assobiando para o ar

O vento soprando, agitado

e na cadeira tombando,

furiosamente embriagado!


Catarina Cabral

segunda-feira, 9 de junho de 2025

 

Comecei o meu caminho há muitos anos atrás; fui crescendo, alongando-me, esticando-me, moldando-me, até que a vida deu as suas voltas, como qualquer vida dá. O caminho continuou, árduo e belo, reeiventando-me nele. Aprendi que não é em linha recta que vivemos, que muitas coisas não são explicáveis, que existe um mistério dentro e fora de nós, de alguma forma a fazer-nos sentir que estamos vivos. Seguimos com as nossas feridas, dores, alegrias e tristezas; seguimos com as nossas vitórias, erros, frustrações. O caminho ainda vai a meio, cheio de surpresas... Faz-se caminhando, com coragem e força.  


                                                                                                                                            Catarina Cabral

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

 

Quando escrevo, incendiam-se palavras dentro de mim, acendem-se luzes na escuridão, agitam-se ventos que transformam a minha alma.


Catarina Cabral

quinta-feira, 2 de maio de 2024

De pé, na paragem

 

Adormeceste de pé uma vez, encostada ao vidro da paragem. Esperavas o autocarro do costume, ainda noite na manhã fria. Às vezes, vinhas de auriculares nos ouvidos, a ouvir canções que te faziam semicerrar os olhos e sorrir em silêncio. Outras vezes, punhas-te a falar com quem ali estivesse também à espera. Eram desabafos de circunstância. Por exemplo, a demora do autocarro, o frio que se fazia sentir, a semana a começar... E na cabeça, a preocupação do sustento, agora que o teu marido ficara no desemprego. As manhãs raramente clareavam, enquanto esperavas na paragem. Hora cruel e violenta, de interrupção do sono, o rosto magro vincado, os olhos escuros, fundos e olheirentos, a pele a cheirar ao duche, o cabelo revolto à pressa escovado, uma mala pequena a tiracolo. Adormeceste de pé, uma vez. Foi nesse momento que te olhei. Na folha do meu caderno, desenhei o teu contorno. Passaste a acompanhar-me sem o saberes, desenhava-te sempre. Foste a criação das minhas esperas daquele primeiro autocarro da manhã. Esse tempo que já passou, que já não é mais o meu nem o teu, pois as nossas vidas continuaram, mudaram, e nunca mais te desenhei.

Texto de Catarina Cabral

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024


O Ó gostava de se rebolar, ora para um lado, ora para o outro. Se o terreno declinava, o Ó lançava-se pelo declive ganhando velocidade.

O Ó chamava, elevando a voz para dizer o nome de quem queria chamar. Dizia-se que era uma das suas especialidades, esse chamar por alguém num tom que exigia atenção absoluta. Por vezes, acontecia-lhe esquecer-se do nome da pessoa e então ficava centrado em si mesmo, esticando-se, alongando-se, repetindo-se. Nessas alturas, sentia-se perdido, incompleto. Desfazia-se em reticências, esperando ainda assim que o compreendessem e o olhassem na expectativa de uma confirmação. Sou eu que chamas?

O Ó abria as bocas em círculo, girava à volta, corria em roda, projectava-se nas argolas de fumo até se fundir com o ar. Era exclamação, interjeição, expressão de pena, ironia. 

Texto e fotografia de Catarina Cabral


 

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Reciclagem

Do baú velho vou retirando objectos do passado, cadernos de folhas amarelecidas pelo tempo, fragmentos de textos de histórias inacabadas. Reciclo algumas palavras como “amor”, “espanto”, “paixão”.

Retiro da velha arca de verga peças de jogos infantis, negativos de fotografias, rascunhos de cartas, presentes que não faz mais sentido ter, recortes de actrizes de cinema, molduras sem rosto, um instrumento musical achado na rua, uma corda de saltar vermelha, moedas de países estrangeiros, cartões de aniversário que fui recebendo ao longo dos anos. Reencaminho alguns desses objectos para outros locais da casa, na esperança de lhes dar vida.

Converto memórias em histórias, amores não correspondidos em ficção, e sorrio quando escrevo “faz um ano”, “faz dois anos”, “há muito tempo atrás”.

Reinvento jogos para as crianças do futuro, com peças toscas do meu baú. Liberto tudo o que na arca tinha trancado e adiado. As palavras giram no pensamento como um carrossel cheio de música e luzes.

E no lugar da velha arca existirá um espaço novo, também ele reciclado.

Texto de Catarina Cabral