Misteriosas, as palavras à espera de serem escritas.
O vento ocupando
a cadeira onde ninguém mais se sentou.
O vento bebendo
dos copos na mesa vazios
O vento brincando
com os guardanapos de papel amachucados,
O vento fazendo-os
rodopiar no ar e no chão
O vento varrendo
para longe os restos, as migalhas
O vento
assobiando para o ar
O vento soprando,
agitado
e na cadeira
tombando,
furiosamente
embriagado!
Catarina Cabral
Comecei o meu
caminho há muitos anos atrás; fui crescendo, alongando-me, esticando-me,
moldando-me, até que a vida deu as suas voltas, como qualquer vida dá. O
caminho continuou, árduo e belo, reeiventando-me nele. Aprendi que não é em
linha recta que vivemos, que muitas coisas não são explicáveis, que existe um
mistério dentro e fora de nós, de alguma forma a fazer-nos sentir que estamos
vivos. Seguimos com as nossas feridas, dores, alegrias e tristezas; seguimos
com as nossas vitórias, erros, frustrações. O caminho ainda vai a meio, cheio
de surpresas... Faz-se caminhando, com coragem e força.
Catarina Cabral
Adormeceste de pé uma vez, encostada ao vidro da paragem.
Esperavas o autocarro do costume, ainda noite na manhã fria. Às vezes, vinhas
de auriculares nos ouvidos, a ouvir canções que te faziam semicerrar os olhos e
sorrir em silêncio. Outras vezes, punhas-te a falar com quem ali estivesse
também à espera. Eram desabafos de circunstância. Por exemplo, a demora do
autocarro, o frio que se fazia sentir, a semana a começar... E na cabeça, a
preocupação do sustento, agora que o teu marido ficara no desemprego. As manhãs
raramente clareavam, enquanto esperavas na paragem. Hora cruel e violenta, de
interrupção do sono, o rosto magro vincado, os olhos escuros, fundos e
olheirentos, a pele a cheirar ao duche, o cabelo revolto à pressa escovado, uma
mala pequena a tiracolo. Adormeceste de pé, uma vez. Foi nesse momento que te
olhei. Na folha do meu caderno, desenhei o teu contorno. Passaste a
acompanhar-me sem o saberes, desenhava-te sempre. Foste a criação das minhas
esperas daquele primeiro autocarro da manhã. Esse tempo que já passou, que já
não é mais o meu nem o teu, pois as nossas vidas continuaram, mudaram, e nunca
mais te desenhei.
Texto de Catarina Cabral
O Ó gostava de se rebolar, ora para um lado, ora para o outro. Se o terreno declinava, o Ó lançava-se pelo declive ganhando velocidade.
O Ó chamava, elevando a voz para dizer o nome de quem queria chamar. Dizia-se que era uma das suas especialidades, esse chamar por alguém num tom que exigia atenção absoluta. Por vezes, acontecia-lhe esquecer-se do nome da pessoa e então ficava centrado em si mesmo, esticando-se, alongando-se, repetindo-se. Nessas alturas, sentia-se perdido, incompleto. Desfazia-se em reticências, esperando ainda assim que o compreendessem e o olhassem na expectativa de uma confirmação. Sou eu que chamas?
O
Ó abria as bocas em círculo, girava à volta, corria em roda, projectava-se nas
argolas de fumo até se fundir com o ar. Era exclamação, interjeição, expressão
de pena, ironia.
Texto e fotografia de Catarina Cabral
Do baú velho vou retirando objectos do
passado, cadernos de folhas amarelecidas pelo tempo, fragmentos de textos de
histórias inacabadas. Reciclo algumas palavras como “amor”, “espanto”,
“paixão”.
Retiro da velha arca de verga peças de
jogos infantis, negativos de fotografias, rascunhos de cartas, presentes que
não faz mais sentido ter, recortes de actrizes de cinema, molduras sem rosto,
um instrumento musical achado na rua, uma corda de saltar vermelha, moedas de
países estrangeiros, cartões de aniversário que fui recebendo ao longo dos
anos. Reencaminho alguns desses objectos para outros locais da casa, na
esperança de lhes dar vida.
Converto memórias em histórias, amores
não correspondidos em ficção, e sorrio quando escrevo “faz um ano”, “faz dois
anos”, “há muito tempo atrás”.
Reinvento jogos para as crianças do
futuro, com peças toscas do meu baú. Liberto tudo o que na arca tinha trancado
e adiado. As palavras giram no pensamento como um carrossel cheio de música e
luzes.
E no lugar da velha arca existirá um
espaço novo, também ele reciclado.
Texto de Catarina Cabral