Adormeceste de pé uma vez, encostada ao vidro da paragem.
Esperavas o autocarro do costume, ainda noite na manhã fria. Às vezes, vinhas
de auriculares nos ouvidos, a ouvir canções que te faziam semicerrar os olhos e
sorrir em silêncio. Outras vezes, punhas-te a falar com quem ali estivesse
também à espera. Eram desabafos de circunstância. Por exemplo, a demora do
autocarro, o frio que se fazia sentir, a semana a começar... E na cabeça, a
preocupação do sustento, agora que o teu marido ficara no desemprego. As manhãs
raramente clareavam, enquanto esperavas na paragem. Hora cruel e violenta, de
interrupção do sono, o rosto magro vincado, os olhos escuros, fundos e
olheirentos, a pele a cheirar ao duche, o cabelo revolto à pressa escovado, uma
mala pequena a tiracolo. Adormeceste de pé, uma vez. Foi nesse momento que te
olhei. Na folha do meu caderno, desenhei o teu contorno. Passaste a
acompanhar-me sem o saberes, desenhava-te sempre. Foste a criação das minhas
esperas daquele primeiro autocarro da manhã. Esse tempo que já passou, que já
não é mais o meu nem o teu, pois as nossas vidas continuaram, mudaram, e nunca
mais te desenhei.
Texto de Catarina Cabral
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