em_trânsito #9, fotografia de catarina cabral
As luzes desfilam na estação. O olhar em movimento. Arrastados de pessoas e de linhas geométricas. A vertigem, a vertigem de continuar.
Paris à noite rumo a um hotel.
from here
leaving Copenhagen
A chuva nas janelas. Em andamento. Em movimento contínuo.
A vertigem. O mar à volta e cabines pintadas de graffiti. Janelas. Filas de carros à espera.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

De pé, na paragem

 

Adormeceste de pé uma vez, encostada ao vidro da paragem. Esperavas o autocarro do costume, ainda noite na manhã fria. Às vezes, vinhas de auriculares nos ouvidos, a ouvir canções que te faziam semicerrar os olhos e sorrir em silêncio. Outras vezes, punhas-te a falar com quem ali estivesse também à espera. Eram desabafos de circunstância. Por exemplo, a demora do autocarro, o frio que se fazia sentir, a semana a começar... E na cabeça, a preocupação do sustento, agora que o teu marido ficara no desemprego. As manhãs raramente clareavam, enquanto esperavas na paragem. Hora cruel e violenta, de interrupção do sono, o rosto magro vincado, os olhos escuros, fundos e olheirentos, a pele a cheirar ao duche, o cabelo revolto à pressa escovado, uma mala pequena a tiracolo. Adormeceste de pé, uma vez. Foi nesse momento que te olhei. Na folha do meu caderno, desenhei o teu contorno. Passaste a acompanhar-me sem o saberes, desenhava-te sempre. Foste a criação das minhas esperas daquele primeiro autocarro da manhã. Esse tempo que já passou, que já não é mais o meu nem o teu, pois as nossas vidas continuaram, mudaram, e nunca mais te desenhei.

Texto de Catarina Cabral

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